08/02/2010

PETER E OS PÉS


Os seus pés caminhavam lentamente nesse corredor vazio. A luz tinha como que adormecido em silêncio nessa casa apagada. Os pés caminhavam eternamente nesse corredor que parecia aumentar a cada passo. Quando os pés não querem dormir, caminham. Quando os pés se recusam a dormir, percorrem corredores infinitos de memórias que gritam, ainda que abafadas pelo calor, pelo frio e pelo silêncio do tempo. Os pés lutam com essa mão que abafa a voz estrangulada num corredor sem destino. Os pés que caminham sem sentido, não percebem que o sentido é somente percorrer esse corredor até à exaustão. Até o medo passar, até a voz se calar, até os olhos se fecharem, a memória se apagar e se estenderem lentamente, um com o outro, num vazio que afinal era somente imaginário.

3 comentários:

Brancamar disse...

Nunca tenho muitas palavras para a sua fantástica prosa. Exercícios psicológicos que são inerentes a todos nós. Adorei.
Só hoje pude voltar para comentar este texto que tinha ficado para tràs,é dos mais interessantes que vi por aqui.
Admiro a consciência muito viva e lucidez que tem de todos os momentos e a forma como faz a sua catarse.
Beijinhos
Branca

PEDRO PINA disse...

Brancamar : obrgd plas suas fieis palavras, finalmente os dedos começam a escrever dp de tantos meses mudos! um beijinhu

Carlos disse...

o medo, talvez nem chegue a passar. talvez seja somente um contínuo processo de renovação... o novo substitui o velho, mas aquele espaço está continuamente reservado para o medo, o escuro.
no entanto, também existe um espaço continuamente reservado para a coragem, a luz.