17 de Out de 2009

PEDRO E AS PORTAS


Retirei as portas de casa. Existe a porta de entrada, a da casa de banho e a do meu quarto. Todas as outras foram retiradas. Não gosto de portas. Fecham-me a passagem. A porta do quarto está aberta. Nunca fecho as portas dos armários. Nunca fecho as portas. Uma porta aberta é uma luz infinita de possibilidades que não quero fechar. Temo que ao fechar essa porta, possa ali não voltar. Temo que ao fechá-la esteja a fechar a minha vida. Olho esse armário aqui à minha frente, a porta está aberta. Nunca fecho as portas. Adormeço. A porta do armário está aberta. A porta do quarto está aberta. Nunca fecho as portas. Não quero fechar essa porta. Não quero ficar trancado, não quero ficar fechado, não quero ficar aqui...

20 de Set de 2009

PEDRO A ACORDAR COMIGO


Acordo. Estico o corpo pela cama. Bocejo. Volto a aninhar-me. Aninho-me em mim. Aninho a cabeça na almofada. Fico mais uns minutos deitado. É bom. Não sei que horas são nesta cama. Abro os olhos. Vejo o meu corpo ocupar esta cama, sem medo, sem solidão. Vejo o meu corpo agarrado ao meu corpo. Dormi comigo. Dormi uma noite inteira comigo. É bom. São 10h da manhã nessa janela. Abro a janela. Vejo esse sol que me abre a alma. Estico o meu corpo ao sol da janela. Encostado ao vidro quente, fico abraçado ao meu corpo, a olhar a luz. Hoje foi a primeira manhã em que acordei comigo. Acordo. É bom!

9 de Set de 2009

PEDRO E O PASSEIO DA FONTES PEREIRA DE MELO


As pedras de calcário alinhadas no chão, recebem os meus pés. É noite. O passeio recebe o meu corpo que se move em direcção a casa. Os carros continuam a passar do lado esquerdo. Vejo-lhes as luzes. A Pizza Hut continua aqui do lado direito. Os saldanhas continuam atrás de mim. O chão continua debaixo dos meus pés. O oxigénio continua a entrar-me devagarinho pelo nariz navegando até aos meus pulmões. O Palácio Sotto Mayor continua do lado esquerdo. A minha casa continua lá ao fundo. Afinal este passeio não desapareceu apesar do teu corpo nao estar do meu lado esquerdo. Afinal a minha mão esquerda não caíu apesar de não estar agarrada à tua neste passeio. Afinal nao fiquei surdo apesar de não ouvir a tua voz neste passeio. As pedras de calcário continuam neste passeio e nem a Pizza Hut desapareceu. A cidade continua aqui e eu também.

25 de Ago de 2009

PEDRO E A TORRADA QUEIMADA


Deixa estar, não te incomodes por mim. Dizia ela, naquele rosto calmo, de uns olhos tristes que queriam gritar e não podiam. De manhã, ao pequeno almoço fazia torradas. Cantava: "torradinhas com manteiga, quem as não comeu, quem gosta de mim são elas, quem gosta delas sou eu!" E enquanto cantava, espalhava calmamente a manteiga nessas torradas, escondendo as mais queimadas no seu prato. Ela ficava sempre com a torrada mais queimada. Aquela que ninguém queria comer. Um dia, olho para mim e ouço a minha voz dizer: deixa estar, não te incomodes por mim. Olho o meu prato e vejo que durante anos, herdei dela esse hábito de não me importar de ficar com as torradas queimadas da vida.

19 de Ago de 2009

PEDRO E A FLOR


Se uma flor perder as suas pétalas, deixa de ser uma flor? Se uma flor perder a sua cor, deixa de ser uma flor? Se uma flor perder o seu cheiro, deixa de ser uma flor? O caule está direito. Da raiz, ligada à terra, sai um liquido que percorre todo o caule. Tu não a vês. Mas ela está ali. Respira devagar esse sol, na esperança que um novo cheiro a pinte, que uma nova cor a lave. Espera poder abrir os braços ao sol e sorrir espreguiçando-se. Estou aqui. Não me vês? Olha para dentro de mim, não olhes para o meu invólucro. Não passa de um corpo intemporal que habito hoje. Fecha os olhos e olha para dentro de mim. Estou aqui. A essência de mim, encontra-se dentro deste caule e vem-me da raiz. Cortaram-me os braços, perdi a cor e o cheiro. Deixei de ser eu?

18 de Ago de 2009

PEDRO E A PRATELEIRA


Pensavas que ia ficar ali sem se mexer? Bastava passar o pano uma vez por semana e se mantinha no mesmo lugar? Olhaste essa prateleira e acreditavas que seria para sempre assim? Quem te deu essas garantias? Quem te colou o calendário à prateleira, acreditando que ganharia ali raizes, deixando de ter vontade própria? Essa prateleira, hoje vazia, foste tu que a esvaziaste. Nao foi ele que se foi embora, foste tu que não o viste a ir-se. Pensavas que era garantido? Que era teu? Que morava na tua prateleira? Nunca nada é de ninguém. Em tempos, não gostaste de dormir tu nessa outra prateleira, porque haveria ele de gostar? Queres deitar-te tu agora na prateleira dele sem te mexeres ou será melhor ambas as prateleiras ficarem garantidamente vazias, sem se mexerem acumulando o pó semanal?

17 de Ago de 2009

PEDRO E O PESCADOR


Sentado, à beira rio, à espera. Vejo esse rio correr à minha frente. Não lhe toco. Ouço-o. Abraço as pernas. Olho para os lados. Espero. Espero o pescador. Espero eternamente esse pescador que me venha salvar. Por vezes, sinto que espero que me ensine a pescar. Que me dê a cana, me ensine a colocar o anzol, a atira-la ao rio. Que me ensine como se espera a vinda de um peixe. Outras vezes, sinto que espero que pesque o peixe por mim, me abrace e me dê de comer. Que me proteja. E existem outras vezes, sentado à beira rio, que sinto que o pescador nunca chegará. Que terei de procurar a cana sozinho, improvisar o anzol e pedir ao rio que me ensine a esperar esse peixe. No entanto, mesmo nessas vezes, fico sentado à beira deste rio, a vê-lo passar à minha frente, à espera do pescador.

16 de Ago de 2009

PEDRO E A LOBOTOMIA


Se essa parte do meu lobo cerebral tem desenhada a tua imagem, quero cortá-la. Faz-me um orifício no crânio, entra dentro do meu cérebro e retira-me essas memórias. Não quero saber de efeitos secundários, posso até ficar sem efeitos, mas retira-me esse lobo límbico que me tortura diariamente. Eu, sozinho, com a minha mão, não chego lá. Não te consigo retirar de mim. Abre-me a caixa craniana, encontra a tua memória, corta-a e retira-a. Podes até retirar todos os pedaços à sua volta. Podes até retirar todos os lobos cerebrais. Tenho a certeza que viver dentro de uma caixa craniana vazia, não me tortura tanto como as recordações que tenho de ti.

15 de Ago de 2009

PEDRO, O TRAIDOR


As raizes da confiança que depositaste em mim, foram quebradas como um pilar partido ao meio. Destruí os alicerces dessa construção. Cortei a árvore e as raízes que nos uniam. Quero dizer-te que não fui eu que o fiz. Quero dizer-te que não, mas o meu corpo estava lá, deitado nessa cama, que não era a nossa. Eu sei, que eu não estava lá, mas vejo o meu corpo nessas memórias que torturam o teu coração. Hoje, vejo que a minha alma não tinha a força para pegar nesse machado que partiu a tua confiança em mim, mas o meu corpo traiu-te. Não existem razões para o ter feito, e por mais razões que existam, e por mais razões que te dê, continuam a não existir razões que justifiquem esse corpo ali deitado. Traí-te. Hoje condeno o meu corpo, que tu condenaste a dormir sozinho, e castigo-o ao carregar dentro dele este coração partido cmo a confiança que ele partiu.

14 de Ago de 2009

PEDRO E OS 5 PEDROS


Existe essa imagem que vejo no espelho, que talvez seja eu, que talvez exista e seja real. Talvez seja o verdadeiro Eu. Fecho os olhos e a imagem que vejo na minha mente é a imagem que tenho de mim. Uma imagem pequena, fragil. É uma imagem muito parecida com a imagem que acredito que os outros têm de mim. Mas esse eu, não é o eu que quero projectar. Quero um Eu forte, que os outros vejam uma imagem grande. No entanto existe um quinto eu, a imagem que os outros têm de mim. Essa, desconheço-a, apesar de achar que se assemelha à pequena imagem que tenho de mim mesmo. Existo eu, a imagem que tenho de mim mesmo, a imagem que os outros têm de mim, a imagem que acho que os outros têm de mim, e a imagem que gostaria de projectar. E essa imagem que vejo no espelho, esse Eu real, quem é?

13 de Ago de 2009

PEDRO ZEN


8h da manhã. Acordo. Levanto-me. Acendo um insenso na sala. Acendo um insenso na casa de banho. Ligo uma música calma. acendo duas velas. Deito-me no sofá da sala. Sinto o vento da ventoínha bater-me nos pés. Fecho os olhos. Sinto o cheiro do incendo pelo meu corpo. Respiro fundo. Tento relaxar. Manter-me calmo. Digo: Calma, Pedro, Calma. Peço ao meu corpo que relaxe. Peço à minha mente que se torne vazia. Ligo a torneira de água quente. Sinto a água pelo meu corpo misturada com o odor do incenso. Fecho os olhos. Entro dentro de mim. Entro dentro da minha mente. Calma, Pedro, calma. Desligo o meu ritual matinal e vou trabalhar. Repito-o todos os dias, numa tentativa de encontrar uma paz zen na minha mente.

12 de Ago de 2009

PEDRO, OS PÉS E OS PATOS


Outra vez esses pés pelos Jardins da Gulbenkian? Sim, outra vez. Os pés páram perto do riacho. Ficam a ver a água a correr. O som da água. O seu movimento. O seu cheiro. Juro que cheira a mar. Será das conchas? Dois patos. Dois patos aparecem por entre as ervas. Entram nessas águas e ficam olhar esses pés parados. Os dois patos olham os dois pés. A água continua a correr. Os pés não movem. Os patos também não. Uma brisa de vento nas penas dos patos. Uma brisa de vento das ervas. A água. Onde estamos? Em que cidade? Em que tempo? Em que ano? Em que vida? Ficamos ali os cinco a comungar o correr fresco do som da água. Os dois patos, os dois pés e eu. A vida poderia ser tão simples...

11 de Ago de 2009

PEDRO E A ESPONJA MÁGICA


Fecho os olhos e imagino-a de todas cores. Além de multicolor, possui uma brilhante transparência capaz de entrar pela tua pele, penetrar a tua carne em direcção ao teu coração. Uma vez ali alojada, discretamente apaga e limpa todos esses pedaços de dor. Absorve a mágoa. Absorve o medo. limpa todas as más memórias. Viaja por todo o teu coração, certificando-se de que cada artéria ficou limpa de toda a negatividade. Cada veia, cada célula, cada plaqueta deverá ser limpa de toda a dor. Uma vez o teu coração limpo e renovado, a esponja despede-se. Pego nessa esponja cheia de dor e lavo-a no mar, renovando-a a ela também, levando para longe toda a dor. Onde te posso encontrar, esponja mágica?

10 de Ago de 2009

PEDRO LAVA-ME



Quero lavar-me. Quero despejar água pura dentro de mim e senti-la a percorrer-me o interior. Que a água limpida passe por todas as células do meu corpo, levando com ela toda a sujidade acumulada de um passado mal resolvido. Quero sentir essa água fresca em cada póro da minha alma, limpando cada mágoa recaldada. Quero lavar-me. Quero lavar a minha alma de cada trauma não esquecido em memórias que me perseguem. Quero limpar-me. Quero purificar-me. Quero ver toda a podridão, todos esses meus erros a desfazerem-se em água até se desvanecerem. Quero lavar-me e sentir-me leve. Quero uma leveza pura, limpida, cristalina. Quero lavar-me. Quero sentir a minha alma lavada, leve, renascida.

9 de Ago de 2009

PEDRO E OS CAVALOS




Depois dessa discussão, saí porta fora. Olho em frente. Os meus pés caminham em frente numa urgência de desaparecer. Percorro essa estrada alentejana sem fim. Corro. Corro sem parar. Não quero pessoas. Não quero vozes. Encontro uma tapada decorada de sobreiros. Salto o muro. Caminho nesse verde. Olho em frente. Uma paisagem de um verde plano sem fim. Respiro fundo. Quero ficar aqui. Quero fundir-me neste verde, nestas àrvores. Fecho os olhos e quero ficar aqui, comigo, para sempre. Sento-me debaixo de uma árvore. Olho para o lado. Dois cavalos aproximam-se de mim. Olho-os nos olhos. Eles olham-me. Esse olhar entende-me. Desejo ficar aqui com eles nesta tapada e fazer dos sobreiros a minha a casa. Foi há quinze anos que essa familia me encontrou ali escondido, fungindo do mundo.

8 de Ago de 2009

PEDRO E O FANTASMA DO PASSADO




Um fantasma vem do passado atormentar o presente. Está sempre à espreita, pronto para nos assombrar, a qualquer momento. Um fantasma do passado tráz com ele pesadelos que nos atormentam, não nos permitindo sonhar o futuro. O medo. O medo dos fantasmas. Fugimos deles. Tentamos ignorar, fugir e fingir. o medo de desenterrar um pesadelo é o medo de viver a mesma dor duas vezes. Mas é preciso fazê-lo. Desenterrá-lo. Deixa-lo vir à superficie e encará-lo. Hoje não lhe vou virar as costas. Não vou fugir e fingir que não me atormentou. Hoje digo-lhe tudo o que está escondido no fundo dos pensamentos da minha alma. Hoje, encaro o fantasma do passado. Digo-lhe que já não o temo. Os fantasmas do passado apenas nos podem atormentar se nós tivermos medo e lhes permitirmos. Apago esse fantasma com borrachas mágicas e sei que não irá voltar a atormentar-me.

7 de Ago de 2009

PEDRO E O DIAMANTE EM BRUTO


Um diamante em bruto é uma pedra rara e preciosa de um brilho e luz poética. Um diamante é lapidado para extrair e realçar toda a sua luz natural. Foi há 6 anos atrás. Encontraste um puro diamante perdido nas ruas do tempo. Disseste: és um diamante em bruto. Mas não o lapidaste. Retiraste-lhe toda a sua luz. As tuas mãos escureceram e anularam-no até se parecer uma mera pedra da calçada, onde dás um pontapé sem sequer a notares. Uma pedra escura, humilhada por uns pés que a fizeram acreditar que o sentimento não existe. Foi há 6 anos atrás. Depois, as mãos de um verdadeiro lapidador tentaram lapidar a pedra assustada, mas o tempo não tinha curado o escurecimento. Hoje vejo a minha luz a querer sair e brilhar.

6 de Ago de 2009

PEDRO, P DE PATINHO VERMELHO


Encosto o meu rosto de criança na janela fria. Vejo a chuva cair. A chuva vem lá de cima e cai nessa relva lá em baixo no jardim. É um fim de tarde cinzento escuro nesse outro país. O meu rosto no vidro frio, vê cair o meu patinho vermelho. O patinho cai não sei quantos andares à chuva. Sou quase do tamanho da janela fria. Tenho 4 anos. Vejo lá em baixo, o patinho indefeso, sozinho, debaixo duma chuva fria. A minha mãe sai. Desce não sei quantos andares e resgata da relva, esse patinho vermelho. A minha mãe entra. Dá-me esse patinho molhado. O patinho gosta de água, mas não gosta de água fria. Prefere a água quente do meu banho. Mas a minha mãe salvou-o para mim.

5 de Ago de 2009

PEDRO E AS MUDANÇAS DE CASA

Não me lembro dessa primeira casa onde aprendi a caminhar. A segunda casa na Alemanha, tinha uma cama na cozinha, onde brinco. A casa muda-se para Viseu, um apartamento no último andar. No último andar, era o sótão dessa outra moradia, onde passo tanto tempo sozinho. Sozinho, mudo-me aos 14 anos. Durmo nesse quarto, na casa da minha tia em Coimbra. Coimbra, um novo apartamento. Faço a mochila. Procuro outra cidade. Procuro-me a mim. São folhas de jornal marcadas em circulos pretos. Abro a porta desse primeiro quarto no Porto. Uma casa velha e assustadora. Procuro outra casa. Procuro-me. É o mapa da cidade no bolso. Abro a porta do segundo quarto, agora num quinto andar. Procuro uma outra casa. Procuro a minha paz, o meu conforto. Faço as malas. Vivo num estúdio T-0. São telefonemas e jornais à procura da minha estabilidade. Da varanda do 8º andar, vejo todo o Porto. Troco a vista pelo primeiro andar do mesmo prédio. Procuro outra cidade. São anúncios preenchidos em páginas de Internet. Os caixotes de papelão são levados para a Praça de Espanha em Lisboa. Caixotes que trouxe para o Marquês de Pombal, neste pequeno T-1, onde escrevo. Procuro-me. Vivi em 13 casas e ainda procuro o lar onde pertenço.

4 de Ago de 2009

PEDRO, P DE PARTO

São quase 19h de um dia de neve. A cama treme. As suas pernas anseiam uma chegada. Uma cadeira treme. As suas pernas anseiam também uma chegada. As pernas deitadas abrem-se de dor. As pernas sentadas, levantam-se à chegada dessa bata branca. Não é possível salvar os dois. Na sua mão, um documento que o responsabiliza na escolha, de qual dos dois deve sobreviver. O documento é rasgado. Ele diz-lhes que não. Ali, entraram dois e terão que sair três. Nas pernas dela há uma espécie de porta proibida. O medo. As pernas dele percorrem corredores. Entre a dúvida e o medo, ele entrega a escolha ao destido. Ouve-se um grito. Ouve-se um choro. E numa dúvida entre o nascimento e a morte, nasci eu, provindo de um documento rasgado que ele nunca assinou. Nesse dia, o mundo pensou em não receber-me, em rejeitar-me. Eu não sabia, mas esta hipótese de rejeição, ficaria marcada em mim para toda a vida.

3 de Ago de 2009

PEDRO SEM, PEDRO COM, PEDRO CEM


Pedro, sem o Pedro, não é ninguém. Durante muito tempo fugi dele. Numa tentativa disfarçada, temendo uma solidão, fingia e evitava encontrar-me com ele. Fugi tanto dele, que o esqueci. Esqueci o seu sorriso, esqueci a sua pureza, a sua inocência, os seus sonhos. Esqueci a sua simplicidade, a sua magia, a sua sensibilidade. Cheguei a acreditar que tudo isso era pura ilusão esvaida pelo tempo, numa sombra de alguém que tinha sangue. Hoje, olho para as minhas veias e tenho a coragem de começar a olhar o Pedro. Tento encontrá-lo em palavras, sonhos, pensamentos, memórias, 100 textos aqui publicados. Porque hoje não quero ser uma memória ou uma sombra do Pedro. Hoje com Pedro, cem Pedro, mas nunca sem Pedro.

2 de Ago de 2009

PEDRO NA RELVA DO JARDIM DA GULBENKIAN


Fim de uma tarde de Verão. Abro os olhos. Um azul claro invade-me. Uma imagem límpida, limpa. Não penso. Não penso em nada. Sinto o verde fresco por baixo de mim. Inclino o rosto. Duas enormes árvores à minha frente dançam ao vento. Um par de árvores. Sinto também o vento no meu corpo. Não penso. Não penso em nada. Fecho os olhos. Enrolo-me em mim mesmo neste jardim e fico aqui. Fico comigo. É bom. Não ouço vozes. Não ouço nada. Ouço um silêncio. ouço-me a mim. Abraço-me. Sinto a relva na minha cara. É bom. Aqui o tempo não existe. Aqui a dor não existe. Aqui não existe nada. Existe esta relva fresca que quase me adormece em mim e existe eu. Reencontro-me nessas árvores. Nessa água. Tenho saudades de mim.

1 de Ago de 2009

PEDRO E A INSPIRAÇÃO DAS PALAVRAS TRISTES


A tristeza parece dominar as pontas dos dedos, movimentando-as em caracteres que desconheço. As palavras tristes viajam desde a alma, numa libertação de um nó sem respirar. A tristeza inspira os dedos numa movimentação contínua de êxtase. As palavras tristes caem em páginas brancas, preenchendo um vazio no qual deveria correr sangue. No qual deveria pulsar sangue. Em vez de sangue vivo, correm palavras tristes. É a inspiração de uma tristeza melancólica que movimenta os dedos. Porque esse estado de alma nos faz viajar interiormente e reflectir sobre a essência. A alegria, faz-nos viver. A tristeza, faz-nos escrever. Olho as pontas dos dedos. Estarão também elas tristes? Pergunto à tristeza: porque trazes tanta inspiração?

31 de Jul de 2009

PEDRO E AS EXPRESSÕES DA LUA



Olho a lua. Era criança. Há janela do meu quarto olho a lua. Uma luz branca enorme. Um circulo pintado de luz, colado no meio duma imensidão escura à minha frente. À noite, deito-me na relva do jardim. Olho a lua. Não vejo uma luz nítida. Vejo caras. São feições e expressões que me olham. Eu não olho a lua. A lua olha para mim. Todas as noites, uma cara diferente habita esse espelho de luz circular. Todas as noites um rosto, uma feição, uma expressão. Não reconheço esses rostos, mas parecem querer dizer-me algo. Vejo-lhe as rugas no rosto, como se fosse o meu próprio espelho. Uma noite, sento-me no telhado de casa. Sinto o calor das telhas nos meus pés. Essa lua enorme está mesmo aqui à minha frente. Todas as noites, olho esse espelho lunar de luz e parece querer dizer-me algo. Hoje, nesta outra cidade, nesta outra janela, vejo a mesma lua e ainda não entendo as suas expressões. Que me queres dizer, lua?

30 de Jul de 2009

PEDRO E A CADELA DESAPARECIDA

Eu tinha 8 anos. A cadela desapareceu. A nossa casa estava em construção. Eu tinha ido ao apartamento buscar não sei o quê. ela veio atrás de mim. Ela não quis voltar comigo. Ficou ali parada à porta do prédio. Eu chamava mas ela não voltava. Depois a minha mãe explicou que sempre que iam ao apartamento lhe davam um biscoito, era isso que ela espera. Eu não sabia. A cadela nunca mais apareceu. Aquela criatura pequena preta nunca mais apareceu. A minha irmã olhava para mim e chorava. Eu não podia chorar. Não podia chorar porque sentia o peso duma culpa da sua fuga. Apesar da tristeza do seu desaparecimento, eu não podia chorar. Foi a primeira vez que me lembro de reprimir os meus sentimentos, engulindo lágrimas que nunca caíram. Eu tinha 8 anos e não podia chorar.

29 de Jul de 2009

PEDRO, ESTOU ALÉM


Quando chego, quero partir. Quando saio, quero entrar. Fico horas a decidir aceitar esse convite. Aceito. Não aceito. Nao, não aceito. Estou decido. Horas depois, penso que deveria ter aceite. Arrependo-me. Vou. Não vou. Chego. Não quero ir. Não vou. Apetece-me ir. Vou. Não me apetecia ter vindo. Quero estar onde não estou. Não quero estar onde estou. Nem o tempo que demoro a decidir, me facilita a aceitação da escolha. Nem a escolha feita por impulso. O impulso, horas depois é também questionado. Penso sempre que deveria ter ido, deveria ter feito. No momento em questão, não era o que queria. Mas agora quero. Estou sempre no sítio errado, na hora errada. Quero sempre estar onde não estou. Quero chego, quero partir.

28 de Jul de 2009

PEDRO DE OLHOS EMBACIADOS



Como é que eu não te vi? Como é que eu não me vi? Desculpa. Tinha um dedo enfiado no olho? Um dedo enfiado até ao cérebro? Tinha os olhos embaciados? Desculpa. Eu olhava para ti, mas não te via. Olhava para mim e não me via. Olhava para mim? Desculpa. Mas esqueci-me de me ver. E ao deixar de me ver a mim, deixei de te ver a ti. Desculpa. Hoje a névoa abandonbou-me os olhos e vejo-te claramente. Hoje a névoa deixa-me ver-me a mim como de facto sou. Olho para dentro de mim e vejo-me. Vejo essa essência de quem sou e vejo-te a ti. Como é que eu não te vi? Tinha os olhos embaciados. Não consegui entrar dentro de mim e ver-me. Desculpa. Hoje vejo os meus olhos, o meu cérebro, o meu coração. Hoje vejo os teus olhos, o teu cérebro, o teu coração. Ainda me queres ver?

27 de Jul de 2009

PEDRO SEM SAUDADES


Vou-me embora. Vais-te embora. Fecho os olhos. A tua imagem desaparece da minha mente. São dois dias. São três. São umas férias. É o tempo for. Fecho os olhos e essas imagens desaparecem. Assim, não tenho saudades. Esqueço-me que existes para não ter saudades. Finjo que não me lembro, para que a saudade não me invada o coração de lágrimas. Finjo que me esqueço para não recordar o quando doi estar longe. Este esquema perverso que ao longo do tempo me habituei a usar com a minha mãe, com os meus amigos, parecia funcionar também contigo, quando não estavas comigo. Este esquema perverso, protege-me de sofrer, mas afastou-me de ti. Vou fechar novamente os olhos e fingir que não existes, agora que estás tão longe, a ver se me esqueço de ter saudades, a ver se não doi.